O ensino oral é superior ao escrito? - Antonio Brito

Numa época onde se fala do ensino à distância, da importância do livro e do papel do professor é estranho acompanhar uma questão tão antiga colocada pela primeira vez por Sócrates.

Trata-se daquelas questões fundamentais que sobrevivem aos séculos, retornando cíclicamente através de pensadores como Santo Tomás, Gomperz, Borges e mais recentemente em George Steiner ( Lessons of the Masters) . Recentemente Luis Fernado Veríssimo lembra com seu modo engraçado de dizer o fato dos mestres nada escreverem e do medo do escrito perecer, em particular aquilo que é digitado.

Esta referência de Borges foi baseada, conforme o ensaio "Do culto aos livros, 1951- em Outras Inquisições" , no filósofo alemão Theodor Gomperz (1832 - 1912) para justificar a ausência de escritos pitagóricos. Gomperz em ("Os pensadores gregos" - livro raro, disponível em USP - Dedalus ).

Por que incluir Pitágoras no mesmo rol dos mestres orais - Buda, Cristo e Sócrates.?

A resposta está uma questão proposta por Santo Tomás :

Na 42 ª Questão da 3ª parte de sua Summa Teológica, São Tomás de Aquino, responde à questão: Por que Jesus Cristo não deixou seus ensinamentos escritos. "Utrum Christus debuerit doctrinam suamscripto tradere?" .

A resposta é, à la São Tomás, bastante simples:

"Sendo o Cristo um professor perfeito , à exemplo de outros pagãos como Pitágoras e Sócrates, ele preferiu falar diretamente ao coração dos homens, pois este é o melhor método de ensino"

É irônico observar São Tomás, um professor e Doutor da Igreja não limitou-se a ensinar pelo "método mais perfeito", de fato escreveu a grande Summa Teológica. Na verdade muito diferente de Sócrates, cujo ensinamento é através do diálogo com os discípulos, São Tomás procura convencer o leitor pela forças dos argumentos da lógica teológica.

Os mais sábios então não precisariam escrever? Teríamos atribuído a Pitágoras ou aos pitagóricos sua gometria caso Euclides não tivesse escrito os Elementos? Platão não imortalizou a morte de Sócrates escrevendo o Fedon (uma das páginas mais emocionantes da filosofia e da imortalidade). O que seria do cristianismo sem os Evangelistas ? O que saberíamos a respeito deles hoje.? Tanto quanto sabemos das inúmeras seitas cujo conhecimento baseava-se na tradição oral, ou seja, nada exceto que existiram.

Por que então os mestres pivotais não escreveram?

Existe duas respostas plausíveis. Os Mestres não escreviam por que não podiam (talvez não dominassem a escrita da época) ou por que não queriam? No caso de Pitágoras, ambas as respostas são aceitáveis. Na sua epoca (~500 A.C.) a maior parte da cultura grega era transmitida na forma oral, em um poema métrico para facilitar a memorização. Sòmente em ~350 A.C., a lingua grega escrita passou a ser uma ferramenta para conservar a memória (e aí Borges nos diz que o livro é uma extensão da memória ). Por outro lado o pitagorismo era uma seita, cujos conhecimentos só eram acessíveis aos iniciados e transmitidos oralmente. Os membros da seita eram condenados caso desvelassem os conhecimentos de Pitágoras aos demais. Não podemos imaginar que algo que devesse permanecer oculto pudesse ser escrito, daí mesmo que Pitágoras dominasse a escrita não a desejaria.

A questão em Sócrates é mais bem definida. Ele acreditava que a filosofia só podia ser ensinada através do diálogo. O aluno teria que chegar ao conhecimento através de um conjunto de perguntas contraditórias até atingir a compreensão, assim nos mostra Platão. São Tomás extrai do Diálogo platônico de Fedro (275a) esta posição socrática, que talvez não fosse a mesma de Platão.

Platão descreve, em Fedro, que um Deus oferece ao rei egípcio os saberes da escrita e este a recusa. Para o rei, e Sócrates, a escrita não ajuda à memória, ao contrário. A escrita é como uma figura, uma esfíngie, símbolos indecifráveis. O autor não mais está está presente para defender a letra imutável. Pode ser que o autor esteja querendo nos enganar, ele não poderá ser contestado.

Para os gregos, inclusive Platão, a escrita egípcia era uma série de imagens indecifráveis.Somente uma seleto grupo de sarcedotes eram capazes de escrever e ler os hieróglifos. A interpretação dos escrita hieroglifica egípcia só foi resolvida em 1800. Um general de Napoleão, em sua expedição pelo Egito, encontrou na margem esquerda do rio Nilo uma pedra com inscrições. Era uma monumento à posse do rei Ptolomeu V em 196 A.C. , escrito em duas línguas e três escritas: hieróglifos, demótico (linguagem cursiva dos hieróglifos) e grego. A decifração dos hieróglifos foi feita pelo inglês Thomas Young e o francês Jean-François Champollion. Este último foi o primeiro a reconhecer que os símbolos poderiam significar letras, símbolos ou um ideograma. Este simples achado escrito permitiu à nossa civilização recuperar a memória escrita nos hieróglifos egípcios.

Platão também discordava do uso da escrita como meio para o ensino da filosofia era compartilhada por Platão.? Não podemos acreditar que quem tanto escreveu de modo tão encantador não reconhecesse a importância do trabalho do escritor para as futuras gerações. O que seria dos pitagóricos sem Euclides que escreveu o conhecimento matemático em Os Elementos. O que saberíamos de Sócrates caso não houvesse os Diálogos de Platão, tanto o quanto sabemos dos sofistas que limiavam-se à palavra oral. Quanto a Cristo, pouco podemos afirmar se ele dominava grego ou o Latim escrito, a duas línguas mais bem estruturadas de então. O que seria dos seus ensinamentos sem os evangelistas?

Num dos ensaios Steiner lembra-nos que de todas as obras humanas, só o livro não perece. Flaubert, recordou ele, moribundo, às portas da morte, enfureceu-se com o fato da sua personagem Emma Bovary sobreviver-lhe. Mulher provinciana, adúltera, quase uma "rameira", sem qualidades dignas de mérito, ela permaneceria para sempre, imortalizada por ele, enquanto o autor estava ali agonizando, deixando escapar a vida. E, como ele, bem antes dele, muitos se consolaram, como Píndaro, que suas palavras ficariam gravadas no tempo, que os grandes homens e as cidades da sua época desapareceriam mas que aquilo que eles escreveram ou disseram nunca mais seria apagado dos registros humanos. O paradoxo disso é que aquilo que nos parece sólido no presente, o concreto, a pedra, o aço, se dissolverá algum dia, enquanto aquilo que nos assoma como o mais frágil: a palavra, o papel impresso, o livro enfim, perdurarão pelos tempos afora. O que é imortal é o produto da inteligência e do espírito humano.

Pedra Rosetta - No Museu Britânico. (Clicar para ampliar)
 

Para saber mais

Português
veja algumas das idéias de Steiner.; veja o artigo de Umberto Eco - Da Internet a Gutenberg. A questão oral, escrita e a tecnologia
Inglês  

Bibilografia

Português
veja Platão
Inglês No projeto Gutenberg, Phaedrus comentado