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A
biblioteca mais famosa da antiguidade, parte de um Museu de estudos em
Alexandria, Egito. Continha toda a literatura grega e traduções.
Sobreviveu por 500 anos e foi destruída em uma guerra civil no
império de Aureliano no século 3 D.C. Alexandria foi fundada
por Alexandre, o Grande em 332 A.C. Foi o centro da cultura helênica
e dos debates na Igreja Cristã primitiva. Atualmente é um
importante porto do Egito, e recentemente sob o patrocínio da UNESCO,
foi criada uma nova Biblioteca de Alexandria.
Jesus
escreveu na areia. - Em São João 8:6 ".. Mas Jesus,
inclinando-se, escrevia na areia com o dedo.
A transmigração da alma, ou seja a volta da alma em um outro ser vivo, por ironia, assemelha-se aos ciclos da idéias, como acredita Splenger e Borges. Na relação cíclica Mestre-Discípulo- Mestre, os corpos perecem porém a sabedoria permanece. Talvez
esta frase seja de Paul Valery (1871-1945). Valery sonhava juntar seus
livros num só e atribuí-lo ao Espírito. Borges em
"Antologia Personal" (1967), diz: "Um autor deve
ser o amanuense do Espírito ou da Musa "[amanuense = copista].
A
escrita como uma esfínge a ser decifrada, e os livros como um desafio
para que o leitor continue a pensar, é um estrategema apreciado
e utilizado por Borges em seus ensaios a partir de Ficciones
(1941).
Borges
força uma observação para enfatizar uma questão:
Por que a Bíblia não começa com a primeira letra,
o Aleph, do alfabeto hebraico?. Como a Bíblia Hebraica não
tinha vogais, B é a primeira consoante e letra. Bereshit não
tem relação com Benedicere (Latim) como afirma Borges.
Em
Hebraico transliteral, é o início do verso primeiro do Gênesis
"Bereshit bara Elohim " Gen1:1 "No princípio criou
Deus os céus e a terra. " :Berehit= Gênesis, no começo;Bara=
criar do nada;Elohim= Deus, aquele que veio do céu.
As
releituras de Quixote ao longo do tempo, transformaram-no em modelo -
um livro perfeito.Todo livro é sobre um outro livro que já
foi escrito. Alonso de Quijano lê muitos livros de cavalaria decide-se
sair pelo mundo colocando em prática suas aventuras. Don Quijote
é uma releitura irônica dos livros de cavalaria
Para
Harold Bloom (1930- ), em O Cânone Ocidental, um livro
é um clássico se puder ser relido inúmeras vezes.
Este também é o conselho de Sêneca a Lucílio.
Talvez
esta citação não seja de Santo Anselmo. Em "Do
Culto aos Livros" , de 1951, Borges aponta Clemente de Alexandria,
"escrever todas as coisas em um livro é deixar uma espada
nas mãos de uma criança ", e Robert Burton, um dos
preferidos de Borges, em Anatomia da Melancolia diz "A pena
pode ser mais cruel que a espada".
O
livro sagrado do Oriente (Índia) são os Vedas - "conhecimento"
dos Hindus, que não podem ser discutidos. Desde o século
5 A.C., é considerado uma Verdade eterna, acima dos Deuses e dos
Homens. Revelada como um presente aos rishis - (clarividentes ) e transcrito
na linguagem humana mais perfeita, o Sânscrito. Até hoje
são recitados de memória como um ato religioso.
João
3:8 "O vento sopra onde quer, e ouves a sua voz; mas não
sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é
nascido do Espírito. "
Umberto
Eco(1932-) em "Diário Mínimo - Dolenti
declinare" , 1963 faz uma ironia sobre a recusa em um Editor
publicar a Bíblia."..Será um problema
tratar de todos os direitos dos diversos autores, a menos que o organizador
trate disso"
Tora
- O livro de Moisés - os cinco livros iniciais do Velho Testamento.
Os hebreus tem o livro escrito em rolo na tora de madeira. Machado de
Assis ( 1839-1908) - em Memórias Póstumas de Brás
Cubas, irônicamen-te diz: "Moisés, que também
contou sua morte, não a pôs no intróito, mas no cabo:
diferença radical entre este livro e o Pentateuco"
Na
carta do Apóstolo Paulo (~ 10 - ~
67 D.C. ) aos Coríntios 2Co 3:6 É verdade, a letra mata,
mais o espírito vivifica.
Alexandre
fundou a cidade de Alexandria. Usava a espada e a Ilíada, desde
a idade de 16 anos, e Borges ironicamente utiliza-o como um exemplo sobre
os "perigos" da escrita e da espada nas mãos de um criança
Eis
uma das deliciosas imprecisões de Borges. Atribui a Sêneca
o episódio do inventário de Pietro Pomponazzi (1462-1525)
professor de filosofia de Padova e renomado bibliófilo. Ao morrer
deixou como herança o que se considerava a maior biblioteca privada
de toda a Itália: não tinha mais de cem volumes
Borges
forja uma justificativa. Platão mantém o estilo oral dos diálogos
de Sócrates, usando as técnicas da narrativa e da tragédia.
Através dos diálogos seus textos ficam brilhantes, porém
não elimina a mudez da palavra escrita.
Sócrates
(ou Platão ? em Fedro # 275) nos diz que as letras escritas estão
mortas e, tais como as esfínges, não respondem e são
um enigma. Nem o que está escrito pode ser levado à sério,
o autor pode estar mentindo. Para Sócrates (e/ou Platão?)
o ensino da filosofia não pode ser feito à distância
através dos livros que atravessam o tempo. Somente o diálogo
ao vivo permite ao mestre demonstrar ao aluno o saber através da
dialética, um sistema de perguntas e respostas onde os preconceitos
são eliminados e as idéias ocultas surgem revelando a verdade
Borges observa as duas funções do livro: estimular a imaginação, nos sonhos e no futuro , e recuperando o passado através da memória. Para Proust, a memória era a matéria da literatura. Através da arte da escrita o autor fixa suas memórias e aprisiona o tempo.O
autor morre, porém o personagem vive para sempre. Sócrates
foi imortalizado, mesmo não sendo um autor, porque é uma
personagem nos Diálogos de Platão. Em Fedon,
Platão descreve, embora tivesse ausente, a morte de Sócrates.
Nietzsche
("Ecce Homo" 311) - esclarece que o conceito do eterno
retorno vêm da Ásia. A doutrina de Pitágoras da transmigração
da alma esta na filosofia Hindu. O conceito do tempo cíclico, formulado
por Heráclito e seguido pelos pitagóricos, esta presente
em toda a obra de Borges
A
dificuldade de compreender Platão está nesta embriagadora
mescla de filosofia e poesia, de ciência e arte. Não temos
certeza através de qual personagem o autor está se expressando,
se está sendo sincero ou irônico, tal como Borges.
Este
ensaio é muito superior à Spengler . A idéia de ciclos
da cultura, de "A Decadência do Ocidente" ,que Borges
leu aos vinte anos, talvez seja a fonte desta citação. Borges
admirava em Splenger o estilo, a descrição de autores e
obras no contexto cíclico da cultura.
O que está escrito é permanente , a voz perde-se no ar.
Ao
final Borges demonstrará uma tese contrária. A escrita evolui no
tempo, devido ao trabalho dos críticos e dos leitores
Platão
concebe as Idéias eternas, verdadeiras, localizadas em um mundo
superior, onde está a essência de todas as coisas, em particular
o significado verdadeiro das palavras.
Pitágoras
não escreveu por dois motivos: (a)Mestre de uma seita secreta onde os ensinamentos
eram transmitidos oralmente, afinal não existe segredos escritos, e (b)
viveu numa época (500 A.C. ) em que a escrita não era utilizada
para o ensino da filosofia. Mais tarde, Euclides de Alexandria (325-265 A. C.)
escreveu os Elementos com as idéias matemáticas dos pitagóricos.
Na
carta do Apóstolo Paulo (~ 10 - ~
67 D.C. ) aos Coríntios 2Co 3:6 É verdade, a letra mata,
mas o espírito vivifica.
Os
discípulos de Pitágoras referiam-se "ao Mestre"
com a um sarcedote divino e não como afirma Borges. Magister em
Grego é "didacticos" - daí a Didática.
Borges utiliza-se de uma expressão da discussão escolástica.
Como a palavra final cabia à Aristóteles concluiam um argumento
com: Magister Dixit = "Aristóteles assim o disse."
O
argumento não se aplica. Aristóteles cita Pitágoras
em Metafísica - 986a "Alcmaeon era contemporâneo
com o tempo antigo de Pitágoras" .
"menin
aeide thea, Peleiadeo Achileos" Humildemente o poeta pede
a inspiração de uma Deusa. Diferente do livro sagrado, ditado
pelo Espirito, o poema é obra humana com a inspiração
divina.
Os
mulçumanos dominaram a Palestina-Judéia e uma grande parte
da Europa e Oriente Médio a partir do século 7.
Borges
aqui teve uma idéia original. Se um povo pode ser representado
por um livro, como os judeus, podem os países serem representaos
por seus livros e autores. ?
"Understatement",
na linguagem da arte significa limitar-se ao essencial, controlar as emoções.
Autores
como Nietzche ou Heine, cujos poemas viraram canções populares,
são bem mais germânicos. Goethe era indeferente à
idéia de pátria e nem gostava do alemão como expressão
da poesia.
Shakespeare
nunca saiu da Inglaterra, porém escreveu peças como se estivesse
na Itália ou, como diz Borges, é universal e poderia ser
como um judeu que habita em qualquer parte
A
literatura francesa inclui vários autores: Voltaire, Rosseau, Balzac,
Hugo, Stendhal, Chateaubriand e Proust e muitos outros. Talvez Balzac
seja o mais francês dos autores.
Expoentes da Edad de Oro da dramaturgia espanhola. O poema mais antigo
e representativo em língua espanhola é El cantar te mi Cid
, um poema de cavalaria com exaltação ao Rei. Cervantes
não só faz do cavaleiro "uma triste figura" como
ironiza o poder da Corte.
Fórmula
farmacêutica do século 17, que continha ópio, empregada
como remédio contra mordidas de cobras
Na
época (1978) a Argentina já estava há dois sob ditadura
militar, na presidência do gal. Jorge Rafael Videla
Hoje
a Argentina seria representada por Borges. Porém Borges estaria
mais confortável entre os entre os escritores ingleses ou europeus,
não se pode dizer que ele seja um "argentino típico".
Ele detestava o conceito de escritor "latinoamericano"
Quem
representaria o Brasil ? Confirmando a tese de Borges, é Machado
de Assis. Seu caráter pessimista distoa do ufanismo parnasiano
da época. Machado estaria à vontade em companhia dos franceses
a quem tanto admirava. Infelizmente Borges não conheceu a escrita
de Machado, iria adorar sua ironia.
Ulysses
,é um livro para ser pensado e interpretado, tal como a Cabala
e os contos de Borges. É um desafio a qualquer leitor que será
recompesado pelo esforço.
Montaigne
prefere os clássicos aos contemporâneos (de 1580, século
XVI), evita os gregos no original (alega conhecimento insuficiente da
língua grega para poder admirá-los como merecem). Os autores
de sua preferência são: Boccaccio ; Rabelais; Virgílio;
Lucrécio; Catulo; Plutarco e Horácio
Borges
recria de modo extraordinário a afirmação de Montaigne
para quem a leitura é "o prazer de um honesto passatempo"
É
natural Borges lembrar-se de Emerson após falar da paixão
de Montaigne sobre os livros. Emerson adota o estilo de Montaigne em seus
Ensaios e dedica-lhe um capítulo nas biografias em "Homens
representativos"
Borges dialéticamente começa a desconstruir o elogio inicial
à palavra oral, realçando o papel do livro como uma fonte
silenciosa do saber. O livro pede uma ação do leitor: abri-lo
e iniciar o diálogo com o autor. O autor, oculto no livro fechado,
está sempre pronto a falar ao leitor, lembrá-lo de um tempo
que passou e instigar-lhe a imaginação, como abrir uma caixa
mágica.
Lecionou
entre 1955 e 1975. Em Um Ensaio Autobiográfico, Borges
ironiza como foi aceito no concurso. Em vez de um vasto currículo
disse: "Este é um cargo a que venho me preparando inadvertidamente
há muito tempo"
Borges
refere-se à aula inaugural em Harvard, registrada no Ensaio The
American Scholar em 1837. ""É impressionante o prazer
que os grandes livros nos oferecem."
Em 1977 Borges já tinha feito uma palestra na Biblioteca Nacional
onde afirmava o prazer da leitura e preferir ler os originais em vez da
crítica
Uma
fina definição da criação literária.
Ao escrever o escritor lembra daquilo que já leu e despertou sua
atenção. Porém é o esquecimento que permite
a criação de um texto original. A partir de 1955 Borges
prefere a poesia. Incapaz de escrever sòzinho guardava de memórias
os versos para transcrição futura.
Uma
ironia de Borges, que já era cego há mais de vinte anos.
Cego é quem não lê.
Tanto
a edição espanhola como as traduções trazem
a grafia errada desta enciclopédia alemã. Borges não
podia corrigir os originais.
Quando
um livro torna-se um clássico ou importante a um leitor ? Borges
e Harold Bloom concordam que um livro é importante se for capaz
de ser relido.
Proust
(1871-1922) ironiza que os livros deveriam estar no formato de jornais,
para que as pessoas tivessem fácil acesso às grandes idéias.
E a frivolidade dos jornais no formato de livros de acesso mais difícil.
George
Steiner (1929- ), em Nenhuma Paixão Desperdiçada
(2001) pergunta: "como pode o livro, um objeito feito de um material
tão frágil, perdurar mais do que outros feitos de aço
e pedra ?. "
Somos
como o rio de Heráclito que se modifica. Como leitores não
somos os mesmos ao longo dos tempos e das releituras.
Borges
aqui omitiu-se como um crítico de Martín Fierro. Em 1953
escreveu um ensaio crítico "El Martín
Fierro", com Margarita Guerrero. | O Livro - Jorge Luiz Borges Dentre os instrumentos inventados pelo homem, o mais impressionante é, sem dúvida, o livro. Os demais são extensões de seu corpo. O microscópio e o telescópio são extensões da visão; o telefone uma extensão da voz e finalmente temos o arado e a espada, ambos extensões do braço. O livro, porém, é outra coisa. O livro é uma extensão da memória e da imaginação Em César e Cleópatra de Shaw, quando se fala sobre a biblioteca de Alexandria , os livros são descritos como a memória da humanidade. O livro é isto e muito mais, é também a imaginação. O que é o nosso passado senão uma série de sonhos? Afinal que diferença pode haver entre recordar sonhos e recordar o passado ? Recordar é uma tarefa do livro. Pensei, certa vez, em escrever uma história do livro, não do ponto de vista físico. Os livros não me interessam fisicamente - sobretudo as coleções dos bibliófilos, em geral imensas -, mas sim como eles podem ser avaliados ao longo do tempo. Splenger me antecipou, em seu livro "Decadência do Ocidente" onde têm páginas preciosas sobre o livro. Com alguma pitada pessoal penso ater-me aqui ao que disse Splenger Os antigos não professavam nosso culto ao livro - coisa que me surpreende. Para eles o livro é um sucedâneo da palavra oral. A frase latina "Scripta manet, Verba volans" não quer dizer que a palavra oral seja volátil, mas sim que a palavra escrita permanecerá e está morta. Por sua vez a palavra oral tem algo de sutil, volátil, sublime e sagrado, como disse Platão. Todos os mestres da humanidade foram, curiosamente, mestres orais. {veja uma discussão detalhada} Vejamos o primeiro caso: Pitágoras. Sabemos que, deliberadamente, Pitágoras nada escreveu. Pitágoras não escreveu porque não quis. Não escreveu porque não desejava limitar-se à palavra escrita. Sentiu sem dúvida que a letra mata mas o espírito vivifica; o que, mais tarde, será citado na Bíblia. Ele deve ter sentido isto, e não quiz limitar-se à palavra escrita, por isto Aristóteles nunca fala de Pitágoras, mas sim dos Pitagóricos. Nos disse por exemplo que os pitagóricos professavam a crença, o dogma, do eterno retorno, que mais tarde foi redescoberto por Nietzsche. Ou seja, a idéia do tempo cíclico, que foi refutada por Santo Agostinho em Cidade de Deus. Santo Agostinho nos diz, através de uma linda metáfora, que a cruz de Cristo nos salva do labirinto circular dos estóicos. A idéia de um tempo cíclico também foi revista por Hume, Blanqui e tantos outros. Pitágoras não escreveu porque não quis. Queria que seu pensamento permanecesse vivo além de sua morte física, na mente de seus discípulos. Daqui veio aquele ditado (eu não sei grego, tratarei de dizê-lo em Latim) "Magister dixit" (o mestre assim disse ). Isto não significa que estavivessem limitados ao que o mestre havia dito, ao contrário, afirmavam a liberdade de continuarem refletindo o pensamento original do mestre. Não sabemos se Pitágoras foi o iniciador da doutrina do tempo cíclico, porém sabemos que seus discípulos a professavam. Pitágoras morre físicamente e eles, por um tipo de transmigração - e isto teria agradado a Pitágoras - seguem pensando e repensando seu pensamento, e quando se reprovam ao dizer algo novo, se refugiam naquela fórmula: "assim disse o Mestre - Magister Dixit." Porém temos outros exemplos. Platão, em um exemplo ilustre, disse que os livros são como esfinges (pode ter pensado em esculturas ou em quadros), que nós cremos que estão vivas, porém se lhes perguntamos sobre alguma coisa elas nada respondem. Então para corrigir esta mudez dos livros, ele inventa o diálogo platônico. Digamos que Platão se multiplica em vários personagens: Sócrates, Gorgias e os demais. Também podemos pensar que Platão queria consolar-se da morte de Sócrates imaginando que este seguiria vivendo em seus Diálogos. Frente a qualquer questão Platão perguntava-se: "O que Sócrates pensaria a respeito disto?". Deste modo Platão imortalizou Sócrates, que também não deixou nada escrito e foi um mestre oral. Sabemos que Cristo escreveu uma única vez algumas palavras na areia que o vento acabou apagando. Ao que se saiba não escreveu mais nada. Buda também foi um mestre oral e só ficaram suas prédicas. Temos uma frase de Santo Anselmo "um livro nas mãos de um ignorante é tão perigoso quanto uma espada nas mãos de uma criança" . Isto é o que se pensava dos livros. No Oriente existe ainda um conceito de que um livro não deve revelar as coisas, um livro deve, simplesmente, ajudar-nos a descobri-las. Apesar de minha ignorância do Hebráico, estudei algo da Cabala. Li as versões inglesas e alemãs do Zohar (O Livro do Esplendor), El Sefer Yezira (O Livro das Relações). Sei que estes livros não estão escritos para serem entendidos, porém para serem interpretados , são desafios para que o leitor continue a pensar. A antiguidade clássica não teve este nosso respeito pelo livro, embora saibamos que Alexandre da Macedônia tinha, em baixo do travesseiro, a Ilíada e a espada - estas duas armas. Havia grande respeito por Homero, porém não era considerado um escritor sagrado no sentido que temos hoje pela palavra. Não se pensava na Ilíada e na Odisséia como textos sagrados, eram livros respeitados, porém podiam ser criticados. Platão podia expulsar os poetas de sua República sem a culpa de estar cometendo uma heresia. Do testemunho dos antigos contra os livros podemos apontar um muito curioso de Sêneca. Em suas admiráveis cartas a Lucílio, tem uma dirigida contra um indivíduo muito vaidoso, de quem se diz que tem uma biblioteca de cem volumes; e quem - pergunta Sêneca - pode ter tempo para ler cem volumes ?. Por outro lado hoje se apreciam bibliotecas grandes. Na antiguidade tem uma coisa de difícil compreensão, que não se parece com nosso culto ao livro. O livro sempre é visto como uma extensão da palavra oral, porém surge no Oriente um conceito novo, de todo estranho à antiguidade clássica: a do livro sagrado . Vamos tomar dois exemplos, começando pelo mais recente: os mulçumanos. Eles pensam que o Alcorão [Do ár. al-qurAYn, 'o que deve ser lido.] é anterior à criação, anterior à língua árabe; é um dos atributos de Deus, não é uma obra de Deus, é como se fosse sua misericórdia ou sua justiça. No Alcorão se fala de uma forma muito estranha do livro original. Este livro é um exemplar do Alcorão escrito no céu. Talvez venha a ser o arquétipo ideal de Platão do Alcorão, e este mesmo livro, nos diz o Alcorão, que está escrito no céu, que é o atributo de Deus e anterior à criação. Assim nos dizem os suleimans, os doutores muçulmanos. Temos outros exemplos mais próximos de nós: A Bíblia, ou mais precisamente o Tora ou o Pentateuco. Acredita-se que estes livros foram ditados pelo Espírito Santo. Isto é um fato interessante: atribuir a livros de diversos autores e épocas diferentes a um único espírito, porém a própria Bíblia diz que o Espírito sopra de onde quer. Os hebreus tiveram a idéia de juntar obras literárias de diversas épocas e formar com elas um único livro, cujo título é Tora (ou Bíblia em grego). A todos estes livros atribuem um só autor: O Espírito A Bernard Shaw perguntaram uma vez se acreditava que o Espírito Santo havia escrito a Bíblia. Ele respondeu: Todo livro que vale a pena ser lido foi escrito pelo Espírito. E eu contesto: Todo livro que vale a pena ser relido foi escrito pelo Espírito.. Vale dizer, um livro tem que ir além da intenção de seu autor. A intenção do autor é uma pobre coisa humana, falível, porém o livro tem que ir além. Dom Quixote por exemplo, é mais do uma sátira aos livros de cavalaria. É um texto absoluto no qual o acaso não existe. Pensemos nas consequências desta idéia. Por exemplo se digo: Correntes águas, puras, cristalinas, árvores que estais refletindo nelas verde prado, cheio de frescas sombras. É evidente que os três versos são de onze sílabas. Foi proposta pelo autor, assim o quiz.. Porém o que é isto comparado com uma obra escrita pelo Espírito, o que é isto comparado com o conceito de Divindade, que se curva frente à literatura e dita um livro. Neste livro nada poderia ser ao acaso, tudo teria que estar justificado, letra a letra. Entende-se, por exemplo que o início da Bíblia: Bereshit bara Elohim, começa com a letra B, porque isto corresponde a bendizer. Trata-se de um livro em que nada é ao acaso, absolutamente nada. Isto nos leva à Cabala, nos leva ao estudo das letras de um livro sagrado ditado por uma divindade, que vem a ser o contrário do que pensavam os antigos. Estes pensavam na musa de um modo bastante vago. "Canta, musa, a cólera de Aquiles" diz Homero no princípio da Ilíada. A musa tem, aqui, o seu correspondente à inspiração. Por outro lado pensar no Espírito é pensar em coisa mais concreta, mais forte: Deus, que nos condescende a literatura. É Deus que escreve um livro; e neste livro nada é ao acaso, nem o número de letras nem a quantidade de sílabas de cada versículo, nem o fato de que possamos fazer jogos de palavras com as letras, de que possamos considerar o valor numérico das letras. Tudo foi ponderado. O segundo grande conceito dos livros - repito - é que ele pode ser uma obra divina. Talvez isto esteja mais próximo daquilo que agora sentimos do que da idéia que os antigos tinham dos livros, quer dizer, o livro é um mero sucedâneo da palavra oral. Logo que cai a crença do livro sagrado ela é substituída por outras crenças. Por exemplo a de que cada país está representado por um livro. Recordemos que os mulçumanos dominam aos judeus, o povo do livro; recordemos a frase de Heinrich Heine sobre uma nação cuja pátria era um livro: a Biblia dos judeus. Temos então um novo conceito, o de que cada país tem pode ser representado por um livro, ou ao menos por um autor, que pode ser autor de muitos livros. É curioso, não creio que isto tenha sido observado antes, que os países elejam para seus representantes autores que não se parecem com eles. Alguém poderia pensar, por exemplo, que a Inglaterra poderia escolher Doutor Johnson como seu representante. Porém não! A Inglaterra escolheu Shakespeare, e Shakespeare é, digamos assim, o menos inglês dos escritores ingleses. O típico da Inglaterra é o Understatement, que significa dizer um pouco menos sobre as coisas. Ao contrário, Shakespeare tendia à hipérbole na metáfora e não nos surpreenderia que Shakespeare tivesse sido italiano ou judeu, por exemplo. Outro caso é o da Alemanha. Um país admirável, tão facilmente fanático, que elege precisamente um homem tolerante, que não é fanático, e a quem o conceito de pátria não é demasiadamente importante, elege Goethe. A Alemanha é representada por Goethe. Na França não se elege um autor, porém temos Victor Hugo. Desde logo, sinto uma grande admiração por Hugo, porém Hugo não é típicamente francês. Hugo é estrangeiro na França, com este estilo decorativo, com estas vastas metáforas, não é típico da França. Outro caso ainda mais curioso é o da Espanha. A Espanha poderia ter sido representada por Lope, Calderón, por Quevedo, porém a Espanha é representada por Miguel de Cervantes. Cervantes é um homem contemporâneo da Inquisição, porém é tolerante, é um homem que não tem nem as virtudes nem os vícios espanhóis. É como se cada país pensasse ser representado por alguém diferente dele mesmo, por alguém que possa ser, um pouco, uma espécie de remédio, uma espécie de "triaca" , um antídoto contra seus defeitos. Nós, os argentinos, poderíamos ter escolhido Facundo de Sarmiento, que é nosso livro, porém não; nós com nossa história militar, nossa história de espada, elegemos como livro a crônica de um desertor, elegemos el Martín Fierro, que bem merece ser eleito como livro. Como pensar que nossa história está representada por um desertor da conquista do deserto? Porém, assim é, como se cada país sentisse esta necessidade. Vários escritores escreveram de modo brilhante sobre os livros. Quero referir-me a uns poucos. Primeiro me concentrarei em Montaigne, que dedica um de seus ensaios ao livro. Neste ensaio tem uma frase memorável: Não faço nada sem alegria. Montaigne mostra que o conceito de leitura obrigatória é um conceito falso. Diz que ao encontrar uma passagem difícil em um livro, deixa-o: porque vê na leitura uma forma de felicidade. Recordo-me que há muitos anos realizou-se uma pesquisa sobre o que é a pintura. Perguntaram à minha irmã Norah e ela respondeu que a pintura é a arte de mostrar com alegria as formas e as cores. Eu diria que a literatura também é uma forma de alegria. Se lemos alguma coisa com dificuldade, o autor fracassou. Por isto considero que um escritor como Joyce essencialmente fracassou, porque sua obra requer esforço para ser lida. Uma leitura, um livro, não deve demandar esforços pois a felicidade não demanda sacrifícios. Penso que Montaigne está certo. Montaigne enumera os livros de que gosta. Citando Virgílio, ele diz preferir as Geórgicas à Eneida porém isto não é importante. Montaigne fala dos livros com paixão, diz que, embora os livros sejam uma forma de felicidade, são contudo um lânguido prazer. Emerson o contradiz. Eis um outro grande trabalho sobre o livro. Nesta conferência Emerson diz que uma biblioteca é uma espécie de salão mágico. Neste salão estão presos os melhores espíritos da humanidade, porém esperam nossa palavra para sair de sua mudez. Temos que abrir os livros e então eles despertam. Diz que podemos contar com a companhia dos melhores homens que a humanidade já produziu, porém que os evitamos e preferimos ler comentários e críticas e não o que dizem os originais. Fui professor de literatura inglesa durante vinte anos, na Faculdad de Filosofia y Letras de la Universidad de Buenos Aires. Sempre digo aos meus alunos que tenham pouca bibliografia, que não leiam as críticas, que leiam diretamente os livros. Talvez entendam pouco, porém sempre terão o gozo de ouvir a voz de alguém. Eu diria que o mais importante de um autor é sua entonação, o mais importante de um livro é a voz do autor, esta voz que chega até nós. Dediquei parte de minha vida às letras, e creio que a leitura é uma forma de felicidade. Outra forma de felicidade menor é a criação poética, ou aquilo a que chamamos de criação, que é uma mistura de esquecimento e lembrança do que lemos. Emerson concorda com Montaigne sobre o fato de que devemos ler somente aquilo que nos agrada e que um livro tem que ser uma forma de felicidade. Devemos tanto às letras. Eu procuro mais reler do que ler. Creio que reler é mais importante, embora para se reler seja necessário ter lido uma primeira vez. Eu tenho este culto ao livro. Posso dizê-lo de um modo tolo e não quero ser tolo, quero que seja uma confidência que faça a cada um de vocês, não a todos, porém a cada um, pois todos é uma abstração e cada um é concreto. Continuo achando que não sou cego, pois prossigo comprando livros e enchendo minha casa deles. Outro dia presentearam-me com uma edição de 1966 da Enzyklopadie Brockhaus e eu senti a presença deste livro em minha casa, senti-a como uma forma de felicidade. Ali estavam os vinte e tantos volumes com uma letra gótica que não posso ler, com os mapas e gravuras que não posso ver e, apesar disto, o livro estava ali. Eu o sentia como uma atração amistosa. Penso que o livro é uma das possibilidades de felicidade que nós, humanos, temos. Dizem que o livro desaparecerá, eu creio que é impossível. Perguntam: que diferença pode haver entre um livro e uma revista ou um disco? A diferença é que uma revista é para ser lida e esquecida, um disco se ouve, e mesmo assim, para o esquecimento, é uma coisa mecânica e portanto frívola. Um livro se lê para a memória. O conceito de livro sagrado, do Alcorão, da Bíblia e dos Vedas - onde também se diz que os Vedas criaram o mundo - pode estar ultrapassado, porém o livro tem uma espécie de santidade que devemos cuidar para que não se perca. Pegar um livro e abri-lo guarda a possibilidade do fato estético. Quais são as palavras inseridas no livro? O que são estes símbolos mortos? É simplesmente um cubo de papel e couro, com folhas. Porém se o lermos ocorre uma coisa rara, creio que ele muda a cada momento. Heráclito disse (e tenho repetido isto em demasia) que nada se banha duas vezes no mesmo rio. Nada se baixa duas vezes no mesmo rio porque as águas mudam porém, o mais terrível, é que nós mesmos não somos menos fluídos que um rio. Cada vez que lemos um livro, o livro se modifica, a conotação das palavras é outra. Além disto, os livros estão carregados de passado. Tenho falado contra a crítica e vou aqui ser contraditório (porém o que me importa ser contraditório). Hamlet não é exatamente o Hamlet que Shakespeare concebeu no início do século 17. Hamlet é o Hamlet de Coleridge, de Goethe e de Bradley. O mesmo se passa com o Quijote. Igual se sucede com Lugones e Martínez Estrada, o Martin Fierro já não é o mesmo. Os leitores acabam enriquecendo o livro. Se lemos um livro antigo, é como se o tivéssemos lido durante todo o tempo transcorrido entre o dia que foi escrito e o nosso tempo. Por isto convém manter o culto ao livro. O livro pode estar cheio de erratas, podemos não concordar com as opiniões do autor, porém ele conserva algo de sagrado, de divino, não de modo supersticioso, mas com o desejo de encontrar a felicidade, de encontrar a sabedoria. Isto é o que queria dizer-lhes hoje. Buenos Aires, 24/05/1978 | |||
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