Do testemunho dos antigos contra os livros podemos apontar um muito curioso de Sêneca. Em suas admiráveis cartas a Lucílio, tem uma dirigida contra um indivíduo muito vaidoso, de quem se diz que tem uma biblioteca de cem volumes; e quem - pergunta Sêneca - pode ter tempo para ler cem volumes ?. Por outro lado hoje se apreciam bibliotecas grandes.
Na antiguidade tem uma coisa de difícil compreensão, que não se parece com nosso culto ao livro. O livro sempre é visto como uma extensão da palavra oral, porém surge no Oriente um conceito novo, de todo estranho à antiguidade clássica: a do livro sagrado . Vamos tomar dois exemplos, começando pelo mais recente: os mulçumanos. Eles pensam que o Alcorão [Do ár. al-qurAYn, 'o que deve ser lido.] é anterior à criação, anterior à língua árabe; é um dos atributos de Deus, não é uma obra de Deus, é como se fosse sua misericórdia ou sua justiça. No Alcorão se fala de uma forma muito estranha do livro original. Este livro é um exemplar do Alcorão escrito no céu. Talvez venha a ser o arquétipo ideal de Platão do Alcorão, e este mesmo livro, nos diz o Alcorão, que está escrito no céu, que é o atributo de Deus e anterior à criação. Assim nos dizem os suleimans, os doutores muçulmanos.
Temos outros exemplos mais próximos de nós: A Bíblia, ou mais precisamente o Tora ou o Pentateuco. Acredita-se que estes livros foram ditados pelo Espírito Santo. Isto é um fato interessante: atribuir a livros de diversos autores e épocas diferentes a um único espírito, porém a própria Bíblia diz que o Espírito sopra de onde quer. Os hebreus tiveram a idéia de juntar obras literárias de diversas épocas e formar com elas um único livro, cujo título é Tora,ou Bíblia em Grego. A todos estes livros atribuem a um único autor: O Espírito A Bernard Shaw perguntaram uma vez se acreditava que o Espírito Santo havia escrito a Bíblia. Ele respondeu: Todo livro que vale a pena ser lido foi escrito pelo Espírito. Eu acrescento: Todo livro que vale a pena ser relido foi escrito pelo Espírito.
Vale dizer, um livro tem que ir além da intenção de seu autor. A intenção do autor é uma pobre coisa humana, falível, porém o livro tem que ir além. Don Quijote por exemplo, é mais do que uma sátira aos livros de cavalaria. É um texto absoluto em que nada é improvisado. Pensemos nas consequências desta idéia. Por exemplo se digo:
Correntes águas, puras, cristalinas,
árvores que estais refletindo nelas
verde prado, cheio de frescas sombras.
É evidente que os três versos são de onze sílabas. Foi proposta pelo autor, assim o quiz..