Se existe um autor para quem a verdadeira vida é a literatura, este homem é Machado de Assis. Se a literatura é a unica vida realmente vivida, para que serve então a biografia do autor ? não bastam seus escritos ? .
Qualquer obra de ficção tem suas raízes fincadas na observação pessoal do autor. Este tece seu texto com elementos da realidade e mescla-os com as leituras que a memória preserva. Não supreende encontrar no texto pistas e indicações sobre a vida e o pensamento do autor. Por outro lado, em que medida conhecer o contexto do autor influencia a leitura? Desconhecer o autor implica em desistir da busca de uma resposta para a instigante, e insolúvel, questão: como foi criada esta arte que me fascina ?
Classificar Machado através das escolas literárias do Romantismo ou Realismo é uma simplificação. Não é difícil encontrar traços do romantismo e do realismo em uma mesma obra, embora os elementos do romantismo tenham desaparecido nas obras concluídas após os 40 anos. Machado não aceitava rótulos e não se sentia confortável em uma ou outra Escola.
No ensaio a Nova Geração (1879) declara que o Romantismo tinha encontrado o seu fim. Na famosa crítica a Eça de Queirós(1878) , Machado rejeita, como Baudelaire, o rótulo do Realismo "cette grossière epithète". Para Machado na arte literária existe uma verdade essencial e necessária que as escolas do Romantismo e Realismo são insuficientes para decifrá-la " as teorias passam, mas as verdades necessárias devem subsistir" citando Renan em companhia de Flaubert para quem o que importa na literatura é a "Verdade".
Na detalhada análise Instinto de Nacionalidade (1873) lamenta a falta de uma crítica literária e de obras de filosofia e linguística entre nós e a ausência da análise psicológica nos romances brasileiros, reconhecendo não ser coisa simples mesmo nos romances franceses a descrição dos caracteres humanos. Neste ensaio Machado define o caminho que pretendia trilhar, longe das picadas abertas pelos romances de José de Alencar, cuja escrita admirava porém não se sentia confortável com o estilo da descrição romântica.
O eloquente prefácio de Machado (1887) à obra completa de José de Alencar observa que o consolo do escritor contra o descaso dos contemporâneos está na sobrevivência da obra, morre o autor porém a obra de arte, a "verdade necessária" permanece. Elegantemente Machado reconhece em Almeida Garret e José de Alencar os pilares construtores da moderna escrita da língua portuguêsa da europa e dos trópicos.