Em Machado este desejo de Proust torna-se realidade. Trata-se de um autor para quem a verdadeira vida é a literatura. Todo autor cria seus personagens e cenários com os elementos disponíveis ao seu redor, mistura-os com as leituras e a memória. Deste modo não é difícil encontrar nos textos informações que lancem uma luz sobre a vida e o pensamento do autor. Por outro lado, em que medida conhecer a biografia e as condições sociais em que viveu o autor ajuda o leitor na busca da intenção do escritor que está atrás do texto ? Conhecer o contexto em que a obra foi produzida trará um prazer adicional ao leitor na recriação da obra a partir de elementos e referenciais do leitor. A interpretação da obra tem seus limites pois como nos alerta Fernando Pessoa "o poeta é um fingidor" e Machado não é uma exceção.
Espanta-nos esta figura singular entre seus contemporâneos. Classificá-lo em períodos ou encarcerá-lo nas escolas literárias do Romantismo ou Realismo é uma simplificação. Não é difícil encontrar elementos em uma mesma obra traços do romantismo e do realismo, embora os traços do romantismo desaparecem nas obras concluídas após os 40 anos. O autor não aceitava rótulos e não se sentia confortável em uma ou outra escola.
No ensaio a Nova Geração (1879) Machado declara que o Romantismo tinha encontrado o seu fim.
Na famosa crítica a Eça de Queirós(1878) , Machado rejeita, como Baudelaire, o rótulo do Realismo "cette grossière epithète". Para Machado na arte literária existe uma verdade essencial e necessária que as escolas do Romantismo e Realismo são insuficientes para decifrá-la " as teorias passam, mas as verdades necessárias devem subsistir" citando Renan
Na detalhada análise Instinto de Nacionalidade (1873) lamenta a falta de uma crítica literária e de obras de filosofia e linguística entre nós e a ausência da análise psicológica nos romances brasileiros, reconhecendo não ser coisa simples mesmo nos romances franceses a descrição dos caracteres humanos. Neste ensaio define o caminho que pretendia trilhar, longe das picadas abertas pelos romances de José de Alencar, cuja escrita admirava porém não se sentia confortável com o estilo da descrição romântica.
Machado dividiu-se nas tarefas de romancista e jornalista. Esta duplicidade, um caso raro entre os romancistas, e praticamente ausente hoje em dia, permite-nos uma comparação entre os textos frutos da imaginação firmados nos contos e romances e o das crônicas - uma sutil e irônica interpretação dos acontecimentos durante o segundo Império.