O inventor do conto brasileiro
As biografias do menino pobre, do funcionário público exemplar, do autodidata que escrevia nas horas de lazer formam a superfície visível do autor. O desafio é desvendar como brota o contista que têm por escudo e arma a escrita irônica. Sem a escada dos padrinhos, num mundo onde cada um tinha "o seu lugar", na sociedade senhorial do Segundo Império, Machado abre uma vereda com inteligência e vontade.
É uma felicidade para nós que Machado tenha deixado um testemunho sobre a literatura tal como ele pensava em 1873 - "Instinto de Nacionalidade". Através deste ensaio podemos avaliar o que pensava o escritor e como ele pretendia construir sua carreira de escritor. Sobre o conto Machado afirma:
"No gênero dos contos, à maneira de Henri Murger, ou à de Trueba, ou à de Charles Dickens, que tão diversos são entre si, têm havido tentativas [entre os escritores brasileiros] mais ou menos felizes, porém raras. É gênero difícil, a despeito da sua aparente facilidade, e creio que essa mesma aparência lhe faz mal, afastando-se dele os escritores, e não lhe dando, penso eu, o público toda a atenção de que ele é muitas vezes credor"
O conto está a um passo da crônica e outro do romance, à época ambos eram publicados primeiro em jornais semanais para posterior consolidação e seleção para publicação no formato de livros. Machado percebia a importância do conto, menos aceito pelos leitores que o romance e a poesia, e a dificuldade em escrevê-los. Seus primeiros contos demonstram a evolução do dramaturgo para o contista, onde as cenas são descritas como se fossem um ato teatral ( em A Mulher de Preto (1868) existe até um trecho de fala teatral ), a conversa com o eventual leitor parece-se com um diálogo do contista com a platéia (Questão de vaidade, 1864). Antes dos trinta anos escreveu contos antológicos, reunidos em Contos Fluminenses (1869). No primeiro conto publicado, aos 18 anos, estão os ingredientes dos quais se utilizará em toda sua obra: ciúme, avareza, viagem, loucura, ambição, adultério, traição pelo melhor amigo, a vida toda Machado passou reescrevendo um único conto, o primeiro - Três Tesouros Perdidos (1858) . Nestes primeiros contos encontram-se os resquícios de uma visão romântica e moralizante, onde o bem geralmente vence e os maus, os avarentos e ciumentos são castigados. São resquícios do dramaturgo moralista como se o teatro fosse o pai do conto. Certamente Machado não inventou o conto, tanto é que cita Charles Dickens como modelo, porém depois que passou a escrevê-los pode-se dizer que o Brasil teve seu primeiro grande contista.