Memórias Póstumas: A incoerente liberdade do autor.
- Memórias Póstumas e Memoires D´outre-tombe: Machado e Chateaubriand
- A crise como gatilho da criação: Borges e Machado.
- Se a Bíblia é incoerente, porque não eu ?
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1. Memórias Postumas e Memoires D´outre-tombe: Machado e Chateaubriand.
Como pode alguém escrever suas "memórias póstumas" ? Esta aparente incoerência é a chave para a compreensão da libertação de Machado de Assis das formas antigas, é a crisálida evoluindo para uma borboleta.
Póstumas (do Latim Postumus: o que vem por último ) significa além da morte, como obra póstuma, aquela publicada após a morte do autor. O que pode ter inspirado Machado de Assis na escolha de um título tão estranho e incoerente ?
Machado de Assis era mais do que um leitor de Chateaubriand,tomava-o como modelo de escrita polida. Em uma crônica [101] de 1892 declara com ironia e admiração:
"Quando um dia li o capítulo dos sinos [Les Cloches ] em Chateaubriand, tocaram-me tanto as palavras daquele grande espírito, que me senti (desculpem a expressão) um Chateaubriand desencarnado e reencarnado. Assim se diz na igreja espírita. "
Este lapso mostra que o modelo de perfeição alcançado por Chateaubriand estava vivo nos esforços de Machado. A engenhosa idéia de um defunto autor, um morto, que escrevesse para a leitura dos vivos, quer em uma outra vida através de uma reencarnação quer além túmulo, como se o espírito fosse imortal assim como a escrita, ainda estava no inconsciente de Machado doze anos após ter concluído Mémorias Póstumas. Chateaubriand escreveu suas memórias ao longo de uma vida atribulada, leiam o Prefácio Testamentário de Memórias de Além-túmulo. Em 1831 pressionado por dívidas, publicou parte destas memórias com este melancólico e maravilhoso Prefácio. Acreditando que a morte se aproximava, que nada mais restava a fazer,trocou o título de Memórias de minha vida para Memórias de Além-túmulo, definindo-se como um autor defunto, ainda em vida nada mais escreveria além destas memórias, porém quiz o destino que os dias de benevolência divina, ou de provação, como diz no Prefácio, prolongaram-se por mais dezessete anos.
Não restam dúvidas. A expressão Memórias Póstumas foi inspirada no título francês :"Memoires d´otre Tombe" de Chateaubriand. Apesar do autor francês estar no ocaso da vida, ao contrário de Machado ainda na faixa dos 40 anos, a crise de 1879 foi um susto que aproximou Machado da morte, sua recuperação foi como nascer de novo. Enquanto o escritor Francês fazia um balanço buscando nos recônditos da memória a lembrança de uma vida intensamente vivida, Machado com energia buscava no romance uma renovação da vida. Como lembra no capítulo I " eu não sou um autor defunto"(um autor que já morreu ou fracassou, ao contrário, tenho energias para renascer e criar uma obra diferente daquilo que tenho feito até então).
Não por mera coincidência uma das traduções para o Francês, têm por título: Memoirs d'outre-tombe de Braz Cubas (traduzido por René Chadebec de Lavalade, Rio de Janeiro, Ed. Atlântica, 1944).
A conexão entre Memórias Póstumas e Memoirs D´outre-tombe vão além dos títulos. Nno prímeiro Capítulo, Machado invoca Chateaubriand de modo oculto : "e a imaginação dela, como as cegonhas qu eum ilustre viagente viu desferirem o vôo desde o Ilisso " - este ilustre viajante é Chateaubriand, leia a crônica [168] e as aves que voam deste rio da Grécia estão associadas à dor da perda que a morte nos traz, como a leitura em paralelo desta crônica nos revela.
Ao ler Chateaubriand
seria difícil ampliar esta voz ao longe que sai do túmulo, e que pode ser ouvida ao longo de minha história. Ninguém achará esquisito se estarei me protegendo de qualquer fraqueza, que estou preocupado com a sorte deste pobre órfão, obrigado a sobreviver quando eu estiver sob a terra. - Prefácio Testamentário
reconhecemos o eco de Brás Cubas em seu caixão.
A crise como gatilho da criação: Borges e Machado.
Uma forte crise pessoal assemelha-se aos terremotos que prenunciam a erupção dos vulcões. O autor após despertar de uma crise onde sente a morte de perto lança mãos de toda energia e criatividade, liberando através da pena a lava de palavras. Nada do que produzirá é novidade para o autor, pois trata-se de material ruminado sem encontrar a forma para se expandir.
Borges repete esta experiência de Machado. Como recorda Italo Calvino, até os quarenta anos Borges limitava-se a escrever ensaios não ficcionais. Depois de uma grave crise de septicemia, que quase o leva à morte, desperta com os ensaios ficcionais denominados Ficciones, que lhe garantiram a imortalidade.
A crise de Machado deve ter sido tão séria e sofrida como será a de Borges.Que mal maior pode existir para um leitor ávido que a perda da visão ? Ao voltar das férias de Friburgo em janeiro de 1880 passou a ditar estas "Memórias" a Carolina.
| ano | contos |
| 1878 | 11 |
| 1879 | 0 |
| 1880 | 1 |
| 1881 | 4 |
A produção de Machado em 1879 e 1880 é ficou paralizada, reduzindo-se ao ensaio: A Nova Geração.No quadro ao lado vemos que Machado produzia mais de uma dezena de contos por mês, e nestes dois anos limitou-se a um único - A Chave, início de 1880 e no ano próximo inicia-se o longo e grande conto : O Alienista. Borges, com irônica modéstia, mostra que a excesso de zêlo, o medo do fracasso e os críticos inibem a escrita inovadora. Após uma crise tão séria, em que o espectro da morte se avizinha, nada mais resta senão ousar.
Machado tinha sérias dúvidas se esta ousadia iria agradar aos leitores de folhetim que buscavam o romance fácil ou aos críticos, e confessa no Prefácio:
Acresce que a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao passo que a gente frívola não achará nele o seu romance usual; ei-lo aí fica privado da estima dos graves e do amor dos frívolos.
O que pensarão críticos, seus amigos escritores ?.Revelarão as falhas de um autor conhecido porém doente?. Machado é mais auto-confiante e declara no Prefácio de Memórias: " se não te agradar (meu crítico) pago-te com um piparote, adeus " ( um empurrão e deixe-me em paz, passar bem.)
3. Se a Bíblia é incoerente, porque não eu?
Machado eperava que os críticos exigentes, leitores atentos, fizessem restrições à escolha do título. Poderia simplesmente atendê-los apontando: "o grande Chateaubriand já utilizou este título, ainda em vida, se ele pôde porque não eu ?" Certamente a vaidade, o cuidado de jamais deixar pista das fontes de leitura onde se saciava, ou a humildade de não se comparar ao autor Francês, impediriam-no de adotar uma solução tão simples. Preferiu mais uma vez a ironia apontando uma contradição bíblica, que por ser sagrada é aceita por todos sem contestação e afirma no Capítulo I:
"Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no intróito, mas no cabo: a diferença radical entre este livro e o Pentateuco".
Como comentamos no Capítulo I, se Moisés escreveu sua morte, foi uma especie de "memórias póstumas". Evidente que ao comparar seu texto com o Bíblico Machado quiz somente ressaltar a ironia da escrita. O título impresso "autor" na contra-capa do livro não é necessariamente o mesmo daquele que o produziu. Moisés não poderia ter escrito o livro que a ele se atribui no Pentateuco. Certamente Moisés não foi o autor do trecho bíblico a ele atribuido, porém um dos vários escritores que compilaram os textos sagrados.
A escolha de um defunto autor teve uma função prática, serviu para tirar de cena o escritor, a pessoa física de Machado de Assis, e criar um autor ficcional Brás Cubas, que por viver anos atrás, podia falar livremente sobre os vícios dos vivos, é uma estratégia comum a vários escritores. Para descrever com liberdade os vícios do seu tempo, para os seus contemporâneos e póstumos, o autor desloca no tempo a ação ficcional. Manzoni (1785-1853) para criticar com liberdade seus contemporâneos no grande romance - Il promessi Sposi - Os noivos (sem tradução em português) - desloca a ação ficcional para duzentos aos atrás.
A técnica do deslocamento no tempo da ação ficcional é necessária para a construção do romance histórico, porém este não é o caso de Memórias. A ação transcorrida num tempo atrás só serve como disfarce a Machado, ele não tem nenhum interesse na história. Esta técnica do disfarce temporal está presente nos contos, para ficar em um exemplo, Linha reta e linha curva de 1865:
Era em Petrópolis, no ano de 186... Já se vê que a minha história não data de longe. É tomada dos anais contemporâneos e dos costumes atuais. Talvez algum dos leitores conheça até as personagens que vão figurar neste pequeno quadro.
Como vimos na sua biografia Machado era um anfíbio, um funcionário público exemplar,tímido e sério de dia. Porém a noite assumia uma outra vida, transformava-se no escritor irônico e mordaz, com a pena nas mãos podia expressar aquilo que engolia em sêco na repartição e na rua, conversando com um hipotético leitor às gargalhadas. Estava sujeito ao juízo crítico dos seus colegas escritores, um funcionário subalterno aos ministros e diretores poderosos e um súdito do Imperador, logo jamais poderia se expressar como um republicano, como os demais escritores.
Certamente Memórias Póstumas carrega em seu interior muito da memória do autor empírico, a vida que Machado observou na infância, assim como Memorial de Aires têm em seu bojo as memórias de uma vida conjungal sem filhos de Machado e Carolina. Porém diferente de Chateaubriand, estas não são memórias de "ma vie", da vida de Machado, embora nestas obras persistam traços destas memórias de uma vida que quase se acabou antes de partir para a contrução do romance de Brás Cubas.
Os caracteres e as vidas dos homens do seu tempo são elementos mais do que suficientes para a matéria prima do autor, tanto nas suas particularidades, como no caráter universal que todo ser humano carrega dentro de si. A fauna humana dentro do aquário da vida pode ser apreciada com mais nitidez quanto mais dele se afasta o escritor.
Encontrar um título foi a chave de libertação do autor. Descreveu as misérias dos homens do seu tempo, sem que seus leitores vivos deles se apercebessem. Não colocou o aviso que se usa nos filmes e novelas: "qualquer semelhança com fatos e pessoas reais é mera coincidência". E precisava ?
O receio de Machado em ser criticado na escolha de um título incoerente revelou-se, com o passar do tempo, uma cautela excessiva. Quase todos os críticos de Machado não pararam para refletir sobre a contradição existente no título e quando o fizeram foram ingênuos em não perceber o despite e a ironia do autor. Uma das dificuldades destes críticos é não estarem atentos à estratégia do autor, em colocar ao lado do narrador - Brás Cubas - um autor modelo que expressa as idéias do autor empírico e guia a leitura de um leitor hipotético, - o leitor modelo - ao longo do texto.
O único crítico a chamar atenção ao problema do título é Roberto Schwarz em "Um mestre na periferia do capitalismo" isbn 8573261773 , cujo mérito resume-se em chamar atenção para esta contradição - pág. 17
O tom é de abuso deliberado, a começar pelo contra-senso do título, já que os mortos não escrevem. ... E que dizer da comparação entre as Memórias e o Pentateuco, sutilmente vantajosa para as primeiras, gabadas pela originalidade? Trata-se, em suma, numa gama que vai da gracinha à profanação"
O objetivo de apontar a contradição não foi de esclarecê-lo, porém de reafirmar uma posição prévia. Desqualificar de modo ingênuo o narrador que não existiu fisicamente, Brás Cubas, fruto da imaginação e ironia de Machado, acusando-o de estar a gozar do leitor.
Sem um cuidado especial no trato do autor empírico - aquele que definiu um título, criou a narrativa e os narradores e recebeu os direitos autorais - do narrador uma ficção que o autor quer que o leitor nele acredite como se fosse o verdadeiro autor, e do autor modelo - que conversa com um leitor hipotético, que guia a leitura e transmite aquilo que o autor empírico quiz dizer de modo indireto ou através de metáforas, o leitor acaba cometendo o erro de confundir os papéis, tomar o narrador como se fosse um autor empírico que está a gozar da cara do leitor.
O equívoco de Schwarz poderia se limitar à confusão do narrador com o autor modelo. Porém o caso vai mais além pois Um Mestre na Periferia do Capitalismo vai além de uma interpretação literária, quer mostrar [pg. 12]
A possível correspondência entre o estilo machadiano e as particularidades da sociedade brasileira, escravagista e burguesa ao mesmo tempo
Este projeto ambicioso e impossível está fora do nosso escopo. Limitamo-nos a buscar as fontes e o estilo de Machado através da leitura da vida do autor e de outras obras, em particular a sinceridade possível nas crônicas, em leituras paralelas. Somos obrigados a concordar com Wilson Chagas "A fortuna Crítica de Machado de Assis" {1994, Ed. Movimento} pg. 65 " é muita reflexão em cima de um texto: reflexão excessiva, e requintada - a custa do leitor. Isto não é livro, mas uma "passoca" : não dá para digerir".
Borges e Ítalo Calvino
Borges - Um Ensaio Autobiográfico [isbn 8525003069] pg. 107 confessa:
"Foi na véspera do Natal de 1938 - o mesmo ano em que meu pai morreu - que tive um grave acidente. Subia correndo uma escada e de repente senti alguma coisa roçar meu couro cabeludo. Apear do tratamento de urgência, a ferida ficou infeccionada e por um período de mais ou menos uma semana passei as noites desperto e tive alucinações e febre alta. Uma noite perdi a capacidade de falar e fui levado às pressas para o hospital para uma operação imediata. Declarara-se uma septicemia e por um mês eu vacilei, compelatamente sem o saber, entre a vida e a morte. Quando comecei a me recuperar temi pela minha integridade mental. Lembro que minha mãe queria ler-me um livro que eu havia encomendado há pouco, Fora do Planeta Silencioso, de C.s. Lewis, mas por duas ou três noites eu continuava dissuadindo-a. Por fim ela triunfou e depois de ouvir uma ou duas páginas comecei a chorar. Minha mãe perguntou-me por que as lágrimas. "Estou chorando porque entendo" disse eu. Pouco depois, perguntava a mim mesmo se jamais poderia voltar a escrever. Havia escrito vários poemas e dúzias de crítica. Pensei que se agora tentasse escrever uma crítica e falhasse, intelectualmente eu me acabaria de todo, mas se tentasse alguma coisa que na verdade nunca tivesse feito antes, e falhasse, isto não seria tão mau e poderia até preparar-me para a reveleção final. Decidi que tentaria escrever uma história. O resultado foi Pierre Menard, Autor do Quixote. "
Calvino - Seis propostas para o próximo milênio [isbn 8571641250] pg. 63:
A última grande invenção de um gênero literário a que assistimos foi levada a efeito por um mestre da escrita breve, Jorge Luiz Borges, que se inventou a si mesmo como narrador, um ovo de Colombo que lhe permitiu superar o bloqueio que lhe impedia, por volta dos quarenta anos, passar da prosa ensaística à prova narrativa. A idéia de Borges foi fingir que o livro que deseja escrever já havia sido escrito por um outro, um hipotético autor desconhecido, que escrevia em outra língua e pertencia a outra cultura - e assim comentar, resumir, resenhar esse livro hipotético. Faz parte do folclore borgiano a história de que seu primeiro e extraordinário conto escrito com essa fórmula, "El acercamiento a Almostásim", quando apareceu em 1940 na revista Sur foi realmente tomado como a recensão de um livro de autor indiano. Assim como faz parte dos lugares obrigatórios da fortuna crítica de Borges a observação de que todo texto seu redobra ou multiplica o próprio espaço por meio de outros livros de uma biblioteca imaginária ou real, ou de leituras clássicas ou eruditas ou simplesmente inventadas. O que mais me interessa ressaltar é a maneira como Borges consegue suas aberturas para o infinito sem o menor congestionamento, graças ao mais cristalino, sóbrio e arejado dos estilos; sua maneira de narrar sintética e esquemática que conduz a uma linguagem tão precisa quanto concreta, cuja inventiva se manifesta na variedade dos ritmos, dos movimentos sintáticos, em seus adjetivos sempre inesperados e surpeendentes. Nasce com Borges uma literatura elevada ao quadrado e ao memso tempo uma literatura que é como a extração da raiz quadrada de si mesma: uma "literatura potencial , para usar a terminologia que será mais tarde aplicada na França, mas cujos prenúncios podem ser encontrados em Ficciones (que contém Pierre Menard, autor do Quijote), nas alusões e fórmulas dessa que poderia ter sido a obra de um hipotético autor chamado "Herbert Quain"