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De brevitae vitae - Da brevidade da vida ~49
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De Brevitate Vitae ad Pauline

Da Brevidade da Vida - a Paulino

(adaptado das versões italianas e inglesas)

Maior pars mortalium, Pauline, de naturae malignitate conqueritur, quod in exiguum aeuvi gignimur, quod haec tam velociter, tam rapide dati nobis temporis spatia decurrant, adeo ut exceptis admodum paucis ceteros in ipso vitae apparatu vita destituat.

 

Nec huic publico, ut opinantur, malo turba tantum et imprudens volgus ingemuit;. clarorum quoque uirorum hic adfectus querellas evocavit.

Inde illa maximi medicorum exclamatio est: vitam brevem esse, longam artem.

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A maior parte dos mortais, Paulino, estão de acordo quando lamentam sobre a avareza da Natureza. Nascemos para viver por pouco tempo, e mesmo assim o espaço de vida que nos é dado se precipita tão rapidamente, anda tão veloz, e de um modo tão fascinante que, excetuando-se uns poucos, quando a maioria dos homens se preparam para viver a vida, ela os abandona.

Sobre este mal, comum a todos, como em geral acreditam, não choram somente o povo simples e os ignorantes, porém os sábios ilustres também sentem-se perturbados e lamentam.

Disto decorre a sentença daquele ilustre médico : "A vida é breve, longa é a Arte".

 

Comentários
A maior parte (= Maiors pars): O autor não concorda com esta opinião, dela se exclui quando define de início que a maior parte dos homens concordam. Como um estóico, Sêneca não concorda que a vida é avarenta, ao contrário, acredita ela é farta e generosa.
dos mortais (= mortalium): Diferente de Homero, Sêneca não fala aqui dos Deuses Imortais, porém dos homens mortais.. Antes enfatiza a frágil e perecível condição humana como uma vontade natural da Natureza.
Paulino (= Pauline) : O destinatário deste diálogo, o X, é Pompeo Paolino, um funcionário público, no cargo de "Prefeito de Arles na província francesa, que controlava a coleta dos impostos, a venda e distribuição dos alimentos. Quando Sêneca dedica-lhe esta carta era um pouco mais jovem que o autor, ao redor dos quarenta anos, longe ainda da idade de aposentadoria entre os servidores públicos romanos, entre os cinquenta e sessanta anos. Sêneca tenta convecer Paulino abandonar as honras e as glórias do serviço público e dedicar-se à filosofia, pois o melhor de seu tempo já se fora. Como este conselho é contrário às leis romanas, Sêneca adverte-lhe que deverá ser ousado e firme nesta opção.
por pouco tempo: (=exiguum): Vivemos por um tempo exíguo. O sábio avalia o tempo de vida, os comuns simplesmente a ignoram até a data fatal. A razão diferencia os homens dos animais. Dentre eles somos os mais frágeis físicamente, a Natureza é averenta para nós, porém nos deu a razão e o sentimento da morte e da vida. Para Plutarco a natureza é sabia ao negar ao homem um tempo de vida variável. Caso contrário estaríamos tão preocupados com o dia final de nossa vida que acabaríamos por antecipá-la.
precipita: (=decurrant): A vida se precipta é uma metáfora de um rio. Ora mais calma, ora mais turbulento as águas do rio correm e ao final se precipitam no vazio.
veloz: (velociter) : o tempo passa igual para todos. Porém é o indivíduo que imprime à sua vida maior ou menor rapidez. O que é variável é a percepção do tempo que vivemos, do tempo perdido com coisas inúteis.
excetuando-se uns poucos: (= excepts paucis) : São os poucos que vivem refletindo sobre a vida e a morte, dentre os quais Sêneca. Eles são o oposto da grande maioria que vive desperdiçando o breve tempo de vida despreocupadamente.
se preparam: (apparatu): Somente depois de passar os melhores anos da vida no trabalho os homens se aposentam e se preparam para "viver a vida". É uma ironia e uma contradição preparamos para viver sòmente quando a morte se aproxima. Teofastro, filósofo peripatético aluno e sucessor de Aristóteles, ao morrer declara que a coisa mais inútil na vida é o desejo de alcançar a fama.
em geral acreditam : (= ut opinantur): É uma falsa opinião da massa vulgar (turba ...volgus) que temos pouco tempo para viver. Não levam em conta a opinião do sábio para quem a vida bem vivida é uma vida bem cumprida, quando o tempo foi bem empregado. Este mal :(= malo) como todos os outros necessita de um médico.
sentença : (= exclamatio): do grego (aphorismós), um aforisma, uma máxima. Uma sentença moral concisa e carregada de significado.
ilustre médico: (= maximi medicorum ): O médico ilustre é Hipócrates ( 460 - ~370 A. C. ), considerado o pai da medicina. Mesmo o maior médico de todos os tempos não encontrava remédio para este falso mal. O mais sábio dos médicos está em companhia da massa vulgar na opinião, errada segundo Sêneca, de que a vida é breve.
A Vida é breve, longa é a Arte : (= vitam brevem esse, longam artem): Na literatura podemos interpretar que a obra de arte escrita permanece, tem longa vida, enquanto a vida do autor é finita. Um exemplo ricamente ilustrado está na morte de Sêneca através do quadro de Rubens: um escriba registra as últimas palavras ditadas pelo filósofo. Camões num lindo soneto declara: " Mais servira, se não fora - Para tão longo amor tão curta a vida." Jacó, assim como o artista, mais produziria para atender a tão longo e profundo amor, porém a breve vida limita a arte. A arte da cura pela medicina solicita inúmeros esforços, incapazes de serem produzidos em uma curta vida, assim também podemos interpretar o aforisma de Hipócrates.
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